
ODS 9
Não há como dissociar desenvolvimento de software de inovação, que é um dos pontos centrais do ODS 9.
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ODS 9 e metas em destaque:
ODS 9: “Construir infra estruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação” (ONU, s.d.)
9.c: “Aumentar significativamente o acesso às tecnologias de informação e comunicação e se empenhar para oferecer acesso universal e a preços acessíveis à internet nos países menos desenvolvidos, até 2020” (ONU, s.d.)
O ODS 9 traz a inovação como um dos fatores para promoção da sustentabilidade e questões relacionadas à infraestrutura e industrialização, na Meta 9.c têm-se especificamente a questão das tecnologias de informação e comunicação. Nesse quesito, entendemos que é impossível que uma equipe de desenvolvimento de software consiga definir preços da internet em um país, como diz o texto da Meta 9.c. mas é possível tomar medidas para que os sistemas de software construídos sejam utilizáveis por uma ampla gama de usuários, em diversos cenários, de maneira equitativa, contribuindo ao acesso universal. Ufua et al. (2021) versam, em seu estudo, sobre a transformação digital na Nigéria e recomenda “a adoção de uma abordagem multidisciplinar para intervenções de transformação digital voltadas para o desenvolvimento para os ODSs 4 e 9 na Nigéria, por meio de um processo de engajamento efetivo das partes interessadas e sinalização institucional transparente”, logo pode-se inferir a importância do desenvolvimento de software numa abordagem multidisciplinar e como parte interessada no engajamento do processo. Ainda, no estudo de revisão sistemática elaborado nesta dissertação, ficaram evidenciadas questões desafiadoras relacionadas à infraestrutura tecnológica para implantação de projetos de software.
Os itens a seguir relacionam-se entre si, porém cabe abordá-los um a um para melhor exemplificar cada situação.
Conexão com a internet: Swartz et al. (2021) aborda que apesar do software apresentado em seu estudo ter uma aceitação dos profissionais da saúde que o utilizam e ser um modelo inovador de coleta de dados de mortalidade infantil e neonatal, esbarra na dificuldade de ser necessária sua instalação num computador, sendo que este processo é burocrático aos usuários, porém foi a única forma encontrada para utilização diante das dificuldades de conexão à internet em unidades de saúde da África do Sul. Portanto, desenvolver funcionalidades que necessitem de conexões à internet de alta velocidade ou que necessitem de conexão com a internet o tempo todo para uso, exclui usuários que não teriam este acesso, dependendo de sua localidade geográfica ou faixa de renda. Se no exemplo citado, um software de uso corporativo (usado em unidades de saúde naquele contexto) já não conseguiria acesso à internet, sistemas de software de uso pessoal precisam de ainda mais atenção nesse quesito. Prover um software instalável que não necessita de conexão à internet em tempo real mas que tem uma instalação pouco amigável aos usuários, também não é um cenário ideal. Portanto, quando se avalia os requisitos não funcionais de um software, deve-se considerar essas questões.
Sistemas operacionais: cabe destaque a este item, pois um projeto de software desenvolvido para funcionar em apenas um sistema operacional, poderá excluir um grande número de usuários, por exemplo, aplicativos para dispositivos móveis que só funcionam nas 3 últimas versões mais atuais do sistema operacional, excluirão todas as pessoas que possuem um dispositivo funcional com sistema operacional anterior as últimas três versões. Salvo se o software for desenvolvido para usuários-alvo muito bem definidos, com a certeza do sistema operacional que eles utilizam. James (2002) cita que o acesso universal às TICs pode ser alcançado através do acesso provido em instituições como escolas, correios e bibliotecas. Para isso precisa-se também de uma redução de custos para implantação, sendo assim, a opção por software livre torna-se uma estratégia possível, cita que: “O caso do México é ilustrativo a esse respeito porque o governo mexicano decidiu em 1998 instalar o sistema Linux em 140.000 laboratórios escolares em todo o país” (JAMES, 2002). Então ao pensar em software instalável, por exemplo para mitigar as dificuldades de acesso à internet citadas anteriormente, não deve-se negligenciar os diferentes sistemas operacionais em que podem ser utilizados.
Hardware: sistemas de software ou determinadas funcionalidades de um software que exigem hardwares específicos para uso, quando são para uso pessoal, acabam excluindo as pessoas que não possuem as especificidades necessárias de hardware. Mc Kena et al. (2019) abordam em seu artigo um software para capacitação de profissionais da saúde frente ao Ebola, no país de Serra Leoa, além das possíveis dificuldades de conexão à internet, é mencionada a necessidade dos usuários possuírem um smartphone ou tablet para uso do aplicativo. Conforme bem ilustrado por James (2022) “Certas instituições em países em desenvolvimento, como escolas, orfanatos e bibliotecas, muitas vezes recebem doações de computadores recondicionados e relativamente antigos de organizações não governamentais (ONGs) [..]” sendo que estes computadores são avaliados para serem doados em perfeito funcionamento, porém não fogem do fator tempo e, num mundo onde novas tecnologias surgem rapidamente, provavelmente estes computadores não sejam de muita robustez no momento em que são doados. Logo, precisam ser pensadas em estratégias para que um software possa funcionar mitigando possíveis limitações de hardware ao fazer o levantamento de requisitos não funcionais, como por exemplo, uso de memória RAM, espaço ocupado em disco, dentre outros.
Todos os fatores citados anteriormente seguem o princípio da portabilidade, principalmente o item adaptabilidade, da ISO 25010:2011.
É desafiador pensar em um software que possa contemplar os 3 critérios mencionados, sem comprometer uns aos outros, portanto é importante investigar o cenário de uso do software, para mitigar os efeitos em um critério ou em outro conforme a necessidade.
Referências
ONU. “ODS 9 - Indústria, inovação e infraestrutura”. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/9>. Acesso em: 08 de mai. de 2023.
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Ufua, D. E., Emielu, E. T., Olujobi, O. J., Lakhani, F., Borishade, T. T., Ibidunni, A. S., Osabuohien, E. S. Digital transformation: A conceptual framing for attaining Sustainable Development Goals 4 and 9 in Nigeria. Journal of Management & Organization, v. 27(5), p. 836-849.2021. DOI:10.1017/jmo.2021.45
James, J. Universal access to information technology in developing countries. Regional Studies, v. 36, n. 9, p. 1093-1097. 2002. DOI: https://doi.org/10.1080/0034340022000024312
Swartz, A., LeFevre, A. E., Perera, S., Kinney, M. V., and George, A. S. Multiple pathways to scaling up and sustainability: an exploration of digital health solutions in South Africa. Global Health. 2021. DOI: https://doi.org/10.1186/s12992-021-00716-1
Mc Kenna, P., Babughirana, G., Amponsah, M., Egoeh, S. G., Banura, E., Kanwagi, R. and Gray, B. Mobile training and support (MOTS) service-using technology to increase Ebola preparedness of remotely-located community health workers (CHWs) in Sierra Leone. 2019. DOI: 10.21037/mhealth.2019.09.03